Um pouco da história de Veneza e seus personagens... viaje por este mundo fascinante.

    Origens de Veneza

Origens de Veneza

Cavalos de São Marcos, trazidos de Constantinopla em 1204

           A história da República de Veneza se originou como um conjunto de comunidades lacustres reunidas para defesa mútua contra os invasores à medida que o poder do Império Bizantino diminuiu no Norte da Península Itálica.          

         Embora não haja registro histórico ligado diretamente às origens de Veneza, os elementos disponíveis fizeram com que vários historiadores concordassem com a teoria de que a população original de Veneza era formada por refugiados de cidades romanas como Pádua, Aquileia e Condórdia (moderna Portogruaro), que fugiam das sucessivas invasões Germânicas (Lombardos) e Hunas à Península Itálica no Século V.         

          O domínio bizantino na Itália Central e Setentrional foi alterado pelo surgimento do Exarcado de Ravena, que foi uma divisão administrativa bizantina na península itálica, que agrupou desde o final do Século VI até meados do Século VIII, os territórios não conquistados pelos Lombardos.

          Durante este período, a sede local do governo bizantino (a residência do duque, depois chamado de doge), estava situada em Malamoco (uma das três entradas, que ligam a lagoa ao Mar Adriático). 

          Houve uma perda gradual dos territórios bizantinos diante do avanço Lombardo, até sua tomada final.

         Nas primeiras décadas do Século VIII, a população das lagoas elegeu seu primeiro líder, Orso Ipato, que foi confirmado pelo Império Bizantino e recebeu o título de doge (duque). Existem duas versões, a primeira diz que ele  foi o primeiro doge de Veneza, mas a segunda afirma que os venezianos primeiro proclamaram Anafesto Paulício como duque em 697.

        Durante o reinado do doge Agnello Participazio (811-827), a sede ducal foi movida de Malamoco para a ilha protegida de Rialto (de "rivoalto", isto é, costa alta). 

Fonte: Wikipedia

Veneza  700 - 1.797

      Venezia Millenaria - Jordi Savall

 O Retorno de Bucentauro ao Molo no Dia de Ascensão, por Canaletto (1730)

      Por aproximadamente mil anos, de 770 a 1797, a cidade de Veneza desempenhou um papel proeminente no Mediterrâneo e na história do mundo. Situada em uma lagoa alimentada por dois rios onde uma série de povoações pequenas e precárias cresceram ao longo da costa, Veneza foi fundada pelos bizantinos, que fizeram dela um ponto de ligação entre o Oriente e o Ocidente. Esta cidade essencialmente aquática, com sua rede de canais, atraiu comerciantes de muitas origens que trabalhavam por objetivos comuns: criar um centro pujante de negócios, intercâmbio e interesses. 

      A cidade gradualmente desenvolveu um comércio de bens do Oriente para o Ocidente (especiarias, sedas, metais preciosos, itens de luxo), que eram trocados por outros bens e commodities (como o sal e a madeira) enviados para o Oriente.

      Ao estabelecer uma "República" na qual o sistema de governo oligárquico era liderado e representado por um Doge eleito, Veneza gradualmente ganhou independência dos bizantinos, tornando-se cada vez mais um parceiro comercial em vez de um mero vassalo.

      Muito rapidamente ao longo do milênio, esta cidade lendária tornou-se rica, independente e poderosa, graças ao desenvolvimento de sua frota. Depois de resistir a Carlos Magno e competir com Roma, emergiu com sucesso como a principal potência econômica da região Mediterrânea, o que possibilitou o progresso técnico, científico e cultural tão evidente na arquitetura, pintura, literatura e música venezianas, entre outras.

      Desde o início e, especialmente, até o final do século XV, Veneza se beneficiou de duas grandes vantagens: primeiro, gozava de total liberdade para imprimir livros, já que não estava sujeita aos ditames do Vaticano e da Inquisição; em segundo lugar, era o Portal do Oriente e o lar para pessoas de todo o mundo - bizantinos, italianos, árabes, judeus, eslavos, armênios e turcos. Tudo isso explica o extraordinário desenvolvimento da sua indústria editorial. 

      Numa época marcada por tantos conflitos religiosos, é notável que Veneza tenha produzido as primeiras edições impressas do Alcorão e do Talmud, além da primeira Bíblia em italiano coloquial seguindo a Reforma Protestante, bem como os primeiros livros que surgiram em consequência da Reforma Alemã. 

      O fato de ser uma cidade de imigração também explica o fato de livros terem sido publicados lá em todas as línguas: assim, vemos os primeiros livros impressos em grego, armênio e no alfabeto cirílico... E mais da metade de todos os livros europeus foram impressos em Veneza. Foi, além disso, a cidade que inventou o best-seller e o livro de bolso, além de imprimir as primeiras edições de livros eróticos, livros de culinária e textos médicos. Veneza também criou os primeiros sistemas rudimentares de direitos autorais e o que agora chamamos de marketing e técnicas de negócios.

 Arthur Streeton - Veneza

                Foi também nesta cidade multicultural que a impressão musical começou no final do século XV. Embora seja datado o nascimento da impressão de música no ano de 1501, com a publicação do Harmonice Musices Odhecaton (Cem canções de música harmônica) de Ottaviano Petrucci. Na verdade, já em 1480, Ottaviano Scotto (c.1440-1498), um nativo de Monza, na Lombardia, imprimiu, entre outras coisas, alguns livros de oração esplêndidos em letras vermelhas e negras. Ele foi o fundador de uma dinastia de tipógrafos que dominaria a impressão de música em Veneza ao longo do século XVI. 

      Embora o livro de música de Ottaviano Petrucci, publicado em 1501, não fosse o primeiro a ser impresso com o tipo móvel, foi o primeiro trabalho dedicado inteiramente à música, em vez de conter apenas fragmentos breves inseridos em um texto litúrgico ou poético. Durante mais de três séculos, a indústria de impressão veneziana desempenhou um papel fundamental cada vez mais influente tanto na música, como na teoria da música italiana e européia, uma influência que continuaria se espalhando além das fronteiras e ao longo dos séculos.

      Finalmente, também foi graças ao comércio e, portanto, em função de seus contatos ao redor do Mediterrâneo, resultado da criação de postos comerciais nas ilhas e ao longo da costa para trocar bens, assim como acolhendo pessoas de todas as origens, que Veneza recebeu as várias influências orientais, cristã, latina e ortodoxa, bem como das culturas otomanas, judaicas, armênias e muçulmanas.

      Estas são as influências que nos propusemos evocar através da música enquanto acompanhamos os eventos históricos ao longo dos mil anos da incrível história da cidade. A história única de uma cidade peculiar, formada por homens que tiveram a visão de criar e preservar a prosperidade e a liberdade de sua República há mais de mil anos graças à sua coragem, know-how, sede de aventura e diálogo, mas acima tudo, do seu amor pelas artes e beleza.

      Oferecemos uma visão dessas influências à medida que exploramos as diferentes paisagens sonoras do Adriático e do Mediterrâneo, dependendo da cidade e região, bem como dos países vizinhos. Com os esplêndidos cantores do grupo musical Ortodoxo/Bizantino sob a direção do excelente cantor místico ortodoxo Panagiotis Neochoritis, nossos músicos convidados da Grécia, Turquia, Marrocos, Armênia e solistas de La Capella Reial de Catalunha, Hespèrion XXI e Le Concert des Nations , apresentamos uma seleção da música sagrada e secular das antigas tradições ortodoxas de Bizâncio, músicas dos Cruzados, músicas de Istambul e do Império Otomano, Grécia, Turquia e, claro, Itália. 

      Eles colaboraram para melhorar e influenciar a música maravilhosa que Bizâncio e Veneza legaram à história da música européia. 

      Os compositores como Guillaume Dufay, Clément Janequin, Adrian Willaert, Joan Brudieu, Claude Goudimel, Ambrosius Lobwasser, Giovanni Gabrieli, Claudio Monteverdi, Antonio Vivaldi, Johann Adolph Hasse e muitos outros, incluindo Mozart e Beethoven, proclamaram e evocaram na Europa do seu tempo e até os dias de hoje a grandeza de uma cidade excepcional que durante tanto tempo reinou suprema.

      Em 1797, as tropas francesas de Napoleão Bonaparte ocuparam a Terra Firma, apressando assim a queda da República de Veneza. Para evocar o fim desses mil anos de história, precipitados pela influência da Revolução Francesa e pelas ambições imperiais de Napoleão, escolhemos uma peça incomum e emocionante composta alguns anos depois, o hino revolucionário "La Sainte Ligue" La nuit est sombre de Luigi Bordèse (1815-1886), cantado com um texto de Adolphe Joly adaptado para coro masculino de 4 vozes com órgão (ou piano) convertido em música por Ludwig van Beethoven, o Allegretto de sua Sétima Sinfonia e o Allegro do fechamento de sua Quinta Sinfonia. Nossa versão musical adiciona a estas 4 peças cantadas a textura instrumental essencial encontrada na peça original de Beethoven, a diferença é que ela é executada aqui com uma variação de arranjo presente na segunda parte do programa.

      Embora a República de Veneza tenha deixado de existir em 1797, o sonho oriental de La Serenissima, como o observa Olivier Lexa, continuou a inspirar um grande número de artistas e intelectuais, incluindo John Ruskin, que escreveu que os Venezianos mereciam menção especial porque eram "os únicos europeus que parecem ter simpatizado plenamente com a índole única das raças orientais".

      No início do século XX, o artista e designer Marià Fortuny y Madrazo, filho do famoso pintor catalão Marià Fortuny i Marsal, homenageou a história oriental de Veneza em seus célebres projetos de lâmpadas e tecidos.

      Em 1797 Veneza foi anexada à Austria, através do Tratado de Campo Formio, que pôs fim à guerra entre França e Áustria.

      La Serenissima se torna parte do Reino da Itália somente em 1.866. Juntamente com Roma, tornou-se uma das cidades "eternas" da Itália, e continua a ser até hoje uma das mais belas jóias da coroa italiana.

JORDI SAVALL 
Bellaterra, 2 de outubro de 2017 

Antonio Vivaldi, o Sacerdote Vermelho de Veneza

      Antonio Vivaldi nasceu em Veneza em 4 de Março de 1678, o filho mais velho de um violinista que também era, por profissão, barbeiro. Aos 15 anos, o jovem Antonio começou seu treinamento para o sacerdócio, apesar - ou talvez por causa - de sua extraordinária aptidão como violinista. (Então, como agora, era difícil para músicos profissionais sobreviverem sem emprego!) Em 1703, aos 25 anos, Vivaldi foi ungido como sacerdote e, mais tarde naquele mesmo ano, foi indicado para mestre de violino para as meninas da Ospedale della Pietà.

      Por causa de seu cabelo vermelho flamejante, Vivaldi ficou conhecido como il Prete Rosso (o Sacerdote Vermelho). Sua associação com a Pietà durou, com vários altos e baixos, por 37 anos. Ele foi o professor titular de violino e viola, para a celebre orquestra da Pietà, ensinando os melhores artistas, que, por sua vez tornavam-se professores ensinando de acordo com seus métodos; entre eles estava Anna Maria Girò, que viria a se tornar sua mais famosa aluna.

Francesco Guardi (1.782)

      Em 1716, ele recebeu o título de Maestro de'Concerti e compositor residente, produzindo um volume prodigioso de obras corais e instrumentais que mantiveram financeiramente a fundação através de suas performances públicas muito elogiadas. Paralelamente, Vivaldi escreveu e produziu óperas, conquistando fama e riqueza, mas sempre caminhando à beira de um precipício financeiro. 

      Quando tinha 46 anos, o Sacerdote Vermelho patrocinou a estréia operística de uma jovem contralto chamada Anna Girò. Ela se tornou sua prima donna favorita e, junto com sua irmã mais velha, viajou com Vivaldi pelo resto de sua tempestuosa carreira como empresário de ópera. Muitas pessoas de destaque, especialmente os colegas clérigos do Sacerdote Vermelho ficaram muito descontentes com essa combinação.

      Em grande parte por causa dos escândalos que perseguiram seu nome, Vivaldi foi exilado de Veneza, a cidade que ele tanto amava. Ele morreu aos 63 anos em Julho de 1741 em Viena, onde foi enterrado num túmulo de indigente.

Placa comemorativa Vivaldi na Universidade Técnica de Viena

Vivaldi imediatamente caiu na obscuridade absoluta por quase duzentos anos, se ele é mencionado nas histórias musicais de Veneza publicadas antes da década de 1960, é como um padre e violinista excêntrico! Seu reaparecimento como compositor só começou quando os estudiosos reconheceram a influência direta e profunda das composições de Vivaldi na música de Johann Sebastian Bach. Pouco a pouco, e às vezes por grandes saltos, a grande produção musical secular e sacra do Padre Vermelho está sendo trazida à vida novamente.

Novas partituras de Vivaldi ainda estão sendo descobertas e muito de suas músicas ainda está para ser gravada. Muitas das obras corais requintadas que ele compôs para a Pietà, entre 1713 e 1739, estão disponíveis em CD da Hyperion Records Limited de Londres, Inglaterra.

Desde a explosão de sua popularidade na década de 1960, a ressurreição de Vivaldi foi nada menos que espetacular. Atualmente, As Quatro Estações é a peça mais amplamente tocada e reconhecida no cânone da música clássica. Suas óperas e oratórios estão sendo revividos em palcos de todo o mundo.

Um pouco sobre a Ospedale della Pietà

      A instituição de caridade Ospedale della Pietà, foi fundada entre 1336 e 1346 na paróquia de Veneza, onde ainda hoje se encontra, San Giovanni in Bragora, na Riva degli Schiavoni, a poucos passos da praça de San Marco. 

Ospedale della Pietà (1.686)

      O único requisito para admissão na Ospedale della Pietà era a ilegitimidade. Bebês indesejados ou inconvenientes eram depositados na scaffetta, uma espécie de gaveta giratória na parede de pedra, que podia ser aberta do lado de fora por qualquer mãe desesperada que colocasse seu bebê ali. Ela tocava uma campainha que ficava ao lado e depois se afastava antes que a prioresa assistente recolhesse o bebê da abertura do outro lado da parede. Uma admissão detalhada da criança e sua condição era feita com a ajuda de uma scrivana, uma das duas funcionárias cujo trabalho era tomar notas e gravá-las nos registros secretos bem guardados da Pietà, o libri della scaffetta.

       Alguns bebês chegavam embrulhados em nada além de trapos imundos. Outros estavam vestidos com roupas indicando que um ou ambos os pais eram ricos e talvez até membros da nobreza de Veneza. As origens de cada órfão eram mantidas em segredo, exceto pelos raros casos em que os pais vinham, às vezes anos ou até décadas depois, para recuperar o filho. 

      Meninos e meninas eram mantidos e educados na Pietà até os dez anos de idade, quando começavam, então, a aprender um ofício. A qualidade dessa educação era, aparentemente, tão alta que o Dodge teve que publicar um decreto que prometia a excomunhão a todos os pais que deixassem seus filhos legítimos na scaffetta, na esperança de que ele recebesse sua educação e formação às custas do Estado.

       À partir dos dez anos de idade, as meninas aprendiam um ofício que poderia mantê-las lucrativamente empregadas. A Pietà era como uma cidade pequena em si mesma, com várias indústrias florescentes; administrar a instituição exigia bastante experiência e mão-de-obra. As meninas eram treinadas como farmacêuticas, cozinheiras, lavadeiras, costureiras, fabricantes de rendas, fabricantes de velas e servas, dependendo de sua aptidão. 

      Em meados do século XVI, uma pequena proporção de meninas que exibiam um grau incomum de talento eram escolhidas para treinamento musical como figlie di coro - literalmente, “filhas do coro” (referindo-se a instrumentistas e cantores). Seus concertos foram uma grande atração turística em Veneza, bem como uma importante fonte de renda para a Ospedale della Pietà. As figlie di coro, enquanto alojadas e mantidas em relativo conforto, eram servas contratadas da República de Veneza, encarregadas de manter o restante da população nas boas graças de Deus através da beleza impressionante da música sacra que elas tocavam.

Anna Maria dal Violin

      Anna Maria foi levada quando criança à casa para órfãos de Veneza, a Ospedale della Pietà, em 1689. O padre e compositor Antonio Vivaldi era seu professor, e ela era evidentemente uma de suas alunas favoritas: ele dedicou a ela 28 concertos de violino. 

Anna Maria passou a ter uma reputação extraordinária durante a sua vida como uma das melhores violinistas da Europa - vários viajantes e críticos contemporâneos louvaram suas qualidades. Apesar de seu status de claustro na Pietà, ela se tornou o equivalente (do século 18) a uma celebridade.

      Devoção, modéstia, bom comportamento, silêncio, obediência e prevenção da ociosidade eram os requisitos básicos da sobrevivência na Pietà. Embora as promoções de Anna Maria tenham chegado tarde, em comparação com as de suas colegas, ela subiu nas fileiras do coro ao mais alto nível de realização musical, dominando seis instrumentos além do violino e, eventualmente, tornando-se amante de concertos e maestrina da orquestra de Pietà. Ela viveu até a idade incrivelmente madura, na época, de 86 anos.

* Texto da escritora Barbara Quick.

  Extraído do seu site: www.barbaraquick.com

** Imagens da internet

Vivaldi - il Prete Rosso

Clique no player abaixo e navegue ao som do fantástico veneziano Vivaldi

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